terça-feira, abril 11, 2006

“Modestas proposições sobre as condições de uma pesquisa em Artes Plásticas na Universidade"

“Modestas proposições sobre as condições de uma pesquisa em Artes Plásticas na Universidade”

in : O meio como ponto zero: metodologia de pesquisa em artes.Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRG,2002, p: 17-33.


De Jean Lancri

Fichamento por: Aroldo Dias Lacerda



Situar a produção do autor é fundamental para se compreender a sua reflexão sobre arte. Pesquisei imagens e um pouco de sua trajetória para subsidiar este fichamento.

Jean Lancri é pintor com vasta produção artística e atua como professor universitário no Brasil e em vários países.Numa exposição em Salvador-Bahia em 2002, o jornal “Correio da Bahia” de 04/12 o descreve como “pintor surrealista francês que traz um trabalho meticuloso de pesquisa de materiais e explora cores vivas e pulsantes. Em suas pinturas, surge sutilmente o desenhista,nos contornos das formas orgânicas”


Inicialmente, Lancri aponta para as dificuldades para se começar algo em qualquer circunstância e daí sugere o ponto de partida para uma pesquisa em artes plásticas: do meio de uma prática. O autor faz o que chama a apologia da posição mediana.

A expressão ‘pesquisa em artes plásticas’ será abreviada por PAP e será usada doravante, dada a freqüência com que ela surge na exposição das idéias.

Passa, então, a definir o procedimento do pesquisador em artes plásticas que, para ele, trabalha entre o conceitual e o sensível, entre a razão e o sonho. A originalidade da tese de uma PAP é o entrecruzamento de uma produção plástica com uma produção textual:

“o ponto de partida da pesquisa situa-se, contudo, obrigatoriamente, na prática plástica ou artística do estudante, com o questionamento que ela contém e as problemáticas que ela suscita”(LANCRI, p:20)

Na apresentação do livro, as organizadoras nos falam também do “ forte vínculo entre o pensar e o fazer ( grifos meus) que configura toda a estrutura necessária para que a informe matéria das idéias encontre campo de pouso e ação”. Eu acrescentaria, evocando o filósofo Rudolf Steiner, o papel mediador do sentir, sem o qual aqueles dois pólos ficariam isolados. E é nessa medida que o artista plástico pode dar um depoimento diferenciado sobre sua produção e a de outros artistas, pois conhece e vivencia através de sua prática os meandros do processo de criação. Cada vez que um artista plástico olha uma obra de arte, ele a interpreta e a analisa a partir de seu próprio sistema referencial, como pensa Sandra Rey em “Produção plástica e a instauração de um campo de conhecimento”.

Segue-se que o modelo de tese aqui em PAP “continua aberto: com cada pesquisa, esse modelo deveria ser reinventado”(LANCRI: p:22). O pesquisador em artes plásticas claudica entre a razão e o sonho.É preciso esclarecer seu objetivo, para defender institucionalmente seu assunto de tese, mas Lancri nos alerta para que o uso da razão seja temperado por uma certa dose de dúvida.Logo é posto o problema do projeto.

Para tanto, propõe que se organize “conceitos suscetíveis de antecipar o objeto de pesquisa, que prevêem a trajetória do futuro trajeto” (LANCRI,p: 27)

Passa a tratar do velho debate que opõe razão científica e a arte.A saída seria imaginar um processo cognitivo que apontasse para o sensível e não somente para o conceito, o que me remete à leitura do prof. João-Francisco Duarte Jr. - do IA da UNICAMP - em seu livro “O sentido dos sentidos- a educação (do) sensível” (Criar edições, 2004). Em sintonia com o pensamento de Lancri, o professor João-Francisco aponta na contra-capa:

“Enquanto o conhecimento intelectivo busca o genérico, a arte se detém no único.(...)A Idade Moderna aspira a um tipo de conhecimento centrado na “razão pura”. Razão hipertrofiada, já que pretende alcançar os mais íntimos setores de nossa vida, desconsiderando o saber sensível e embotando o desenvolvimento da sensibilidade dos indivíduos.Essa anestesia que sofre (sic) o homem contemporâneo precisa ser revertida através de uma educação da sensibilidade”

Continuando suas ponderações, Lancri afirma à página 28 que “ a PAP não preconiza um outro uso da racionalidade, mas prioriza o uso de uma outra racionalidade”, que levaria em consideração o uso contraditório dos conceitos , sem que isto viesse a avalizar a imprecisão. Pois:

“A redação do texto, que constitui a parte escrita da tese, deve buscar a maior precisão do pensamento. (...) Racionalizar o nebuloso, (...) o que não implica, ao contrário, que seja necessário, por isso racionalizar a arte”(LANCRI, p: 29)

Analisa agora , o comportamento de um pesquisador em ciências frente ao do artista plástico: o primeiro tende a se retirar do campo da episteme, enquanto o segundo nele penetra com temeridade. Retoma o fato de a PAP claudicar entre sonho e razão e evoca a estratégia de Juan Miró e Paul Klee, escolhidos ‘ao acaso’, onde duas fases devem ser destacadas . A seu exemplo, a gênese e a busca de uma tese de uma PAP teriam dois momentos: o da proliferação e o da depuração. Relaciona o primeiro momento ao sonho e o segundo à razão, não sem antes alertar que nada impede , entretanto, que superando este simplismo ( o grifo a seguir é meu): “ A razão sonha e o sonho raciocina em uma claudicação – em que a PAP poderia encontrar uma de suas melhores definições”(LANCRI, p:31).

Caminha para a conclusão, trazendo a questão da autoridade do autor de uma PAP, da maneira como o autor se faz autoridade ( ou não) no seio da comunidade científica e cita Montaigne, que escreveu ao fim de seus Essais: “Não fiz meu livro mais do que meu livro me fez”. Nota que falando-nos assim, magistralmente Montaigne ata dois enigmas: o da reflexividade e o da paternidade:

“Sim, em arte, é bom que o autor se faça reconhecer como tal; na ciência, ao contrário, é bom que o autor se faça esquecer como tal”(LANCRI, p: 32)

Finaliza delineando todas as diferenças entre criação, por um lado, e produção, invenção, descoberta, por outro. A primeira se vinculando mais à arte e as demais, à ciência. E encerra, ao apontar que:

“o cerne da questão da pesquisa universitária em artes plásticas é, em última análise, a questão da arte”.(... )uma questão perpetuamente retomada aos confins de investigações empreendidas nos campos da produção, da invenção, da descoberta e, por que não, da criação”(LANCRI, p: 33)