terça-feira, maio 02, 2006

MANIFESTO FESTINA LENTE

“Nas sociedades dominadas
pelas modernas condições de produção,
a vida é apresentada
como uma imensa
acumulação de espetáculos.
Tudo o que era diretamente vivido
vira mera representação.”

Guy Debord
ORIGENS

Nascimento do Grupo:
Belo Horizonte, 24 de setembro de 2005 - Libra

Do nome:
Expressão Festina Lente
( do lat. ‘ Apressa-te devagar’)
citada por Ítalo Calvino em seu livro
“Seis propostas para o próximo milênio”(1991),
acrescida de + Abundantia
– que se contrapõe à ‘cultura da falta’,
tão cara ao sistema capitalista.

Da necessidade de se criar mais instâncias
para a partilha e a discussão,
do desejo de fazer da reflexão
o trampolim para a ação e vice-versa,
um grupo de amigos –
estudantes de Artes Visuais da UFMG
que ingressaram juntos em 2004 e
profissionais que atuam em áreas diversas
- resolveu desacelerar sua rotina.
Pessoas que confiam em seu potencial para
agir, isolada ou conjuntamente, em prol de
melhor qualidade de vida nas metrópoles.

COLAGENS DE CONSTATAÇÕES


“A nós, livres-pensadores, não basta constatar e
problematizar a época de transição em que vivemos.
Faz-se necessário agir.
É preciso atualizar o mote cartesiano para
‘penso, sinto e ajo, logo existo’.
As conseqüências do isolamento da ‘cabeça’
(ênfase no conhecimento intelectivo)
da totalidade do corpo
(ênfase no conhecimento sensível)
se fazem notar:


* A bárbarie graça placidamente
em meio a ilhotas de pós-modernidade;
a fome, a pobreza no sentido amplo, a desigualdade,
a exclusão, o desamparo social, a falta de habitação
e saneamento e a violência
consomem nossa vitalidade
ao lado da exarcebada produção de ruídos,
imagens,automóveis, telefones celulares
e alimentos transgênicos.

* A aceleração do ritmo da vida cotidiana,
principalmente nas grandes cidades,
onde o tempo seguido não é mais o próprio e sim
o das máquinas eletrônicas:
relógios espalhados em cada esquina
– versão contemporânea daqueles primeiros
trazidos pelos jesuítas, para as torres das igrejas;

* O culto ao consumo é
a consagração da inacessibilidade das coisas.
É conseqüência do processo
de desnaturação do mundo em museu,
quando o sujeito passa a ver e visitar
a própria realidade como turista.

* A ‘imbecilização’ e a ‘idiotização
(no sentido grego de ‘alienação da vida pública’)
ocupam o espaço da
inventividade e da participação política
no trato da coisa pública
e são frutos de um modelo econômico
que perpassa todos os âmbitos da vida
e mina-os com sua lógica.

* “A arte perambula (...) desamparada;
ela não é mais a forma artística de um conteúdo social,
não é mais reflexão estética do todo,
mas ‘formalidade’ segregada,
forma sem conteúdo comum, socialmente definido;
ela se torna, em última análise, um fim em si mesmo
e, como ‘arte pela arte’,
nada mais é do que caricatura involuntária
da economia ‘desenfreada’.”

Como profissionais da Arte e Educação,
julgamos que, de certa maneira,
a Arte tem de se tornar militante
com os seus próprios meios
e pleitear a submissão da economia
a um ‘cosmos’ cultural a ser reinventado,
(e não mais herdado culturalmente)
fazendo triunfar a estética do todo
sobre a eficiência empresarial.
Percebemos também que somente uma arte
que supere a si mesma
como crítica da própria desestetização social
pode renascer para a Vida.

AÇÕES


Os espaços públicos – onde os homens se encontram,
identificam-se nos seus anseios e na sua universalidade,
onde negociam sua existência – vêm sendo corroídos.
O grupo Festina Lente quer fazer uso dos
instrumentos da Arte e da Educação na
experimentação de intervenções lúdicas
no espaço urbano como formas efetivas
de contribuição social.
Vemo-nos na obrigação de agir,
de passar das palavras aos atos
e fazemos isso em sessões quinzenais
onde o grupo procura alicerçar o agir
a fim de que a atuação seja sempre
fomentada e enriquecida.


O ponto de partida é a idéia de retomar a ação conjunta,
a fraternidade e a afetividade como práxis
nas relações inter-pessoais e a convergência de ideais,
Nosso balão de ensaio para a melhor formação profissional
diante do complexo mundo em que estamos inseridos,
refinando a capacidade de trabalhar em equipe,
ter visão global, ser um promotor de mudanças
através do conhecimento oriundo do aprendizado contínuo.
Não há busca de soluções milagrosas,
e sim a vontade de criar soluções simples e factíveis
para uma intervenção efetiva no cotidiano
Procuramos aproveitar os ensinamentos da história
e projetá-los em direção ao futuro, pois como já foi dito:
’A melhor maneira de prever o futuro é inventá- lo’ .


ALGUNS REFERENCIAIS


Bebemos das fontes do Dadaísmo,
da Antropofagia modernista,
do Situacionismo de Guy Debord,
do grupo Fluxus,
do grupo Krisis de Robert Kurz .
do pensamento de Antoine Compagnon,
dos filósofos Rudolf Steiner e Loris Malaguzzi,
do professor João-Francisco Duarte Jr e
da escultora japonesa Akiko Fujita,
das conversas, apoios e aulas
de professores da EBA/UFMG,
especialmente os promovidos pela
profa. Maria do Céu ,
prof. Marcos Hill e prof. Vlad Eugen.


Não partimos do zero.
Possuímos conhecimentos e experiências
que devemos compartilhar.
Nesta perspectiva, a futura sede do Festina Lente
será um local para a sistematização de iniciativas como
ateliês e oficinas, exposições,
debates e eventos culturais
.
Espaço comum de reflexão sobre nossas ações,
num processo democrático e participativo
em que a estrutura piramidal tradicional
se converta em távola redonda,
fomentando a construção da cidadania e,
muito mais além, do trans-humano.”


MOTIVAÇÕES MAIORES


Como idéias para uma linha de ação,
destacam-se algumas motivações maiores:


1. Desaceleração: respeito ao tempo próprio (Eigenseit)


2. Pensar em Abundância:
focalizar no que está presente e não no ausente


3. O nosso norte é o SUL


4. Prática de ‘Gentileza urbana’


5. Busca de um aprofundamento do estudo dos
referenciais citados (com a devida leitura antropofágica)
e do fomento da formação em Arte – educação


6. A conjugação de energias e esforços,visando o
aperfeiçoamento das práticas artístico-profissionais,
seja em ateliês, seja nos respectivos locais de trabalho.


MEMBROS FUNDADORES


Aroldo Dias Lacerda aroldolacerda@ufmg.br
Redator,estudante de Artes Visuais, quase engenheiro eletrônico,
artesão e professor de Arte para crianças.
Isabel Rodrigues belsilva@yahoo.com
Relações públicas,estudante de Artes Visuais,jornalista de gaveta,
professora de francês e português.
Janaina Mello janainamello@gmail.com
Assistente para assuntos de design, fotografia e Informática,
estudante de Artes Visuais, arquiteta e cenógrafa.
Eduardo Flores projetokaya@terra.com.br
Assistente de design, estudante de Artes Visuais, percussionista.
Eduardo Pina dupina@hotmail.com
Fotógrafo, tocador de violão, estudante de Artes Visuais.
Paula ENS paulaens@yahoo.com.br
Professora de Escola Waldorf, formada em Letras.


Em Belo Horizonte, 22 de Abril de 2006 ,
Dia do Planeta Terra e
Dia do Avistamento do Monte Pascal na Pindorama pelos portugueses,
os fundadores citados
assinam este manifesto.


Visite nosso blog
e acompanhe este movimento:
www.festinalentebrasil.blogspot.com


Contato:
festinalentebrasil@gmail.com

3 Comments:

At 9:00 AM, Anonymous fernando h. catani said...

Caros Festinas Lentes,
Esta frase que abre o Manifesto é genial. Eu pensei um pouco sobre e percebi que acontece também que, devido esta característica de representação que assumimos, as coisas convincentes passam a ter mais aceitação do que as verdadeiras, aí... como a mentira é fabricada para ser convincente, quem tenta ser verdadeiro tem um bom trabalho pela frente. Parabéns pela boa idéia e contem comigo para algumas realizações.
Abraços!
Fernando (Ateliê NÉOS)

 
At 9:52 AM, Anonymous Brígida Campbell said...

ei Festinas! Puxa tô achando tão legal essa história, o manifesto, as poesias... tudo lindo! Dá uma esquentadinha o coração! Tô acompanhando tudo! beijos a todos Brígida

 
At 10:59 AM, Blogger Halem Souza (Quelemém) said...

Vida longa a FESTINA LENTE. Acompanharei de perto. Inté.

 

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